O Homem e a Morte
O homem já estava deitado
dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
a porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
pois nela uma qualquer coisa
de pressagio adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
- Quem bate? ele perguntou.
- Sou eu, alguém lhe responde.
- Eu quem? torna. - A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
que a mãe lhe um dia levou.
guardou-se de abrir a porta,
antes ao leito voltou,
e nele os membros gelados
cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixo
Ver - Uma mulher ou um anjo?
Figura toda banhada
de suave luz interior.
A luz de quem nesta vida 
tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
de quem ao peito o criou
sorriso igual ao da amada
que amara com mais amor.
- Tu és a Morte? pergunta.
E o anjo torna: - A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
do viver que te humilhou.
- Imaginava-te feia,
pensava em ti com terror...
És mesmo a Morte? ele insiste.
- Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
mestra que jamais engana,
a tua amiga melhor.
E o Anjo foi se aproximando,
a fronte do homem tocou,
com infinita doçura
as magras mãos lhe compôs.
Depois com o maior carinho
os dois olhos lhe cerrou...
Era o carinho inefável
de quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
que amara com mais amor.
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2018/8/18 | 17:06:57

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