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O Livro dos Espíritos  |  Introdução do Estudo da Doutrina Espírita   |  Item XIII   |  01/09/2003
AS DIVERGÊNCIAS DE LINGUAGEM
Recorde-se que o mundo espiritual é constituído por individualidades onde, cada qual mantém suas características, sua personalidade, modo de ser e pensar diferentes umas das outras em tudo: conhecimento, moralidade, sábios, brincalhões, ignorantes etc. etc.... Entende-se, por conseguinte, que emitam sobre os variados assuntos opiniões diferentes, pois sentem, pensam, buscam a Verdade sob objetivos diferentes, pessoais.
           1 — Como entender, porém, o desacordo, a discordância que leva Espíritos a se expressar, sobre um mesmo assunto, de forma diferente?

Esse é mais um dos pontos que enfatiza a necessidade do estudo contínuo, pois só através da observação profunda é que se conseguirá perceber que a discordância nem sempre é tão real quanto possa parecer num primeiro momento - a ideia fundamental permanece - as definições divergem, na forma da construção da frase, no estilo mais rebuscado ou sintético. Muitas vezes, a diferença se estabelece, decorrente do modo como a pergunta é feita onde, sobre um mesmo assunto, poderá ser enfocado outro ângulo de uma mesma questão. Observados estes pontos, quase sempre onde, num primeiro momento se observa contradição, o que realmente existe são as diferenças de palavras, nas quais os Espíritos superiores não se detêm - a forma em si não lhes importa e sim - a essência do pensamento no estímulo ao Bem.

Livres da matéria, o pensamento rápido constrói frases que levam muito mais que um simples encadear de palavras formando a oração ou o texto.
 Ao se comunicar com os encarnados, o processo deve-lhes ser altamente embaraçoso, limitativo, pois não conseguem exprimir a realidade, a amplitude de suas idéias. Somem-se, os limites e incapacidades do médium, as formas ou termos disponíveis na escrita, na linguagem humana, na lentidão no passar e no captar da idéia, da mensagem. Daí, por compreenderem, saberem de tudo isso, não se atêm as divergências ortográficas.

 Ao tratar dos profundos e sérios ensinamentos dos quais se ocupam, detêm-se na ideia, no objetivo, na proposta, exprimindo-a em todas as línguas e a todas compreendendo.
Conhecem a correção da linguagem, a forma correta das construções, mas não se agastam, se o médium não a percebe, tanto que, ao ditar, por exemplo, uma poesia - o estilo, a métrica é perfeita, apesar da ignorância ou desconhecimento do médium.
O mesmo acontece em relação ao significado das palavras: - o texto em estudo, exemplifica com a palavra alma, que, não tendo uma definição única, poderá, para quem lê, entender haver divergência.

           Exemplo:

                      — um Espírito poderá usar o termo, afirmando que ela é o princípio da vida;
                      — outro refere-se a ela, como centelha anímica;
                      — um terceiro dirá que é interna;
                      — um quarto, que é externa etc. etc. etc.
           Na realidade, todos falam de um mesmo assunto, sob objetivos, propostas e enfoques diferentes.
           O mesmo acontecerá, se a idéia a ser trabalhada referir-se a Deus:
                      — alguns falarão Dele, como princípio de todas as coisas
                      — outros o apresentarão sob a face da misericórdia, justiça, inteligência, previdência, providência etc. etc.

           Em relação aos Espíritos, a mesma situação:

                      — sabemos de sua existência em incontáveis graus de perfeição ou imperfeição - estabelecer uma escala em classes que sintetizem as qualidades boas ou não, classificá-las, dividi-las em três, cinco ou vinte sub classes, é arbítrio de quem está voltado a esse trabalho, sem que por isso, se coloque em erro, tanto frente a realidade, como em relação aos outros ou fale de algo diferente que colide, contraria, infringe ou diverge do todo.

Na Ciência humana, encontramos vários sistemas sobre um mesmo objeto em estudo. Normalmente, levam o nome do pesquisador que apresentou, descobriu ou defende aquela ideia ou aquela faceta da verdade. Linneu, Jussieu, Tournefort etc., são sistemas em teses defendidas por esses cientistas e que em Botânica conserva-lhes o nome, que referencia a ideia, a pesquisa por eles feita ou defendida.
A ênfase, entretanto insiste, no sentido, de que é possível que tenha havido sobre um mesmo ponto, discordâncias.

Alertam os Espíritos, a que não se faça dessa aparência motivo de inquietação que podem levar a que se duvide da unidade da crença. Nesse momento, Espiritismo, como que, desabrocha, ajusta-se seu estudo em método, isto é, a ordem lógica a ser seguida na investigação; a precisão das leis que regem, ainda não está completa, o que faz com que esses desvios sejam normais.

A princípio, a Ciência espírita pareceu muito simples, pois, muitos se detiveram no mover das mesas. A observação atenta porém, veio mais tarde revelar ramificações e conseqüências muito mais complexas do que se pudera imaginar
           ... "as mesas girantes são como a maçã de Newton: na sua queda encerra o sistema do mundo"...

Na realidade, aconteceu o que normalmente se passa com o que é novo: por não se ver o todo, cada um se detém, percebe um lado e comunica ou se atém ao que vê sob seu ponto de vista, suas idéias e preconceitos.
Em relação aos Espíritos são eles julgados, descritos, segundo a natureza das relações com eles estabelecidas, onde alguns são transformados em demônios; outros em anjos - afirmações estas decorrentes da apreciação daqueles que se detém na parte. Sem a visão, sem a busca do todo, cada qual estaciona naquilo que se consiste em objeto de suas preocupações.

Nesse caso, as divergências são decorrentes dos diferentes ângulos, sob os quais o pesquisador se fixa, sem interagir com as demais faces, também em estudos e pesquisas, afastando-se assim, do todo.
Esse estado de discordância ou parcialidade é comum nos sistemas prematuros fechados ou que se fixam em observações pessoais. A tendência é que, pesquisadores idôneos, cada um com suas observações, se unam na busca de uma origem comum.
           As várias teorias espíritas, portanto, têm duas fontes:
                      — uma, nascida do cérebro humano, onde o homem, crendo possuir todo o conhecimento daquilo que procura, se compromete, afastando-se do ponto central.
                      — a segunda, Espíritos ensinando coisas diferentes sob uma mesma idéia que se inter-relacionando, agindo umas sobre outras, abre-se na descoberta, digamos assim, da causa.

Conhecer a "Escala Espírita" favorece entender melhor essa aparente anomalia de linguagem dos Espíritos.
Conforme a classe em que se situe, tal será a qualidade e abrangência de suas apreciações.
Perceberemos que alguns são incapazes de informações exatas sobre o mundo que habitam ou o lugar em que estão. Considere-se ainda, que essas apreciações poderão provir de um leviano, inconseqüente, zombeteiro, mau, vicioso, mentiroso etc., que oferecerá detalhes segundo seus preconceitos e objetivos, sob os quais acobertam seus verdadeiros fins. Divertir-se, induzir ao erro, afirmar o que não sabem, dar conselhos indicando o que se deve ou não fazer, enganar a boa fé etc. etc., sempre segundo o ponto de vista pessoal descompromissado com os objetivos maiores da Verdade.

Destaque-se que hoje, este estudo e conhecimento de detalhes, tem especial importância. Pelo fato de já termos a Doutrina firma em seus princípios e leis, dispomos de pontos seguros para aferição, que responsabiliza a cada um, no sentido de que a idéia seja buscada, mantida, preservada na sua pureza para que possa ser vivida sem desvirtuamentos, onde a grande fonte de controvérsias passa a ser o desenvolvimento intelectual e moral dos Espíritos encarnados e desencarnados.

Leda Marques Bighetti
Setembro / 2003
 
Bibliografia:
Kardec, Allan — "O Livro dos Espíritos" - Introdução XIII 
Kardec, Allan — "Revista Espírita" - Agosto 1858
 
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